sábado, 21 de novembro de 2009

Figuras e linguagem literária

Serão de Junho

Ouve: – alguém bateu na porta...
Janelas brilham no escuro.
Cada casa é uma estrelinha.
Cada estrela é uma família.
E o minuano, pobre diabo,
que não quer ficar no escuro,
bate, bate, empurra a porta,
praguejando como um doido:
– Pelo amor de Deus, eu quero
a esmola rubra do fogo!
Mas ninguém abre ao minuano.
Que noite fria lá fora...
Cada casa é uma estrelinha.
Há mais estrelas na terra
do que no céu, Deus do céu!
Lá fora que noite fria ...
E o minuano, pobre diabo,
andando sempre, andarengo,
para enganar a miséria,
geme e dança pela rua
enquanto assovia - chora,
e enquanto chora - assovia.

MEYER, Augusto. Poesias. Rio de Janeiro: 1957, p.18.
- Vozes do poema


Podemos perceber três vozes diferentes neste poema. A primeira delas é a das pessoas que estão dentro de casa, justificada no primeiro verso da primeira estrofe. “Ouve: - alguém bateu na porta...” e no segundo verso da terceira estrofe: “ Que noite fria lá fora...”
A segunda voz presente no texto é a do próprio Minuano, figura principal do poema. “ Pelo amor de Deus, eu quero a esmola rubra do fogo!”
E, por último, a voz do narrador que nos põe a par do acontecimentos. “E o minuano pobre diabo, que não quer ficar no escuro...”
As cenas narradas no poema são vistas de acordo com essas vozes. Ora as vemos de dentro das casas, ora de fora.



- Presença de figuras de linguagem

A figura de linguagem mais expressiva no poema é a prosopopeia ou personificação. Essa figura possibilita a atribuição de características humanas a objetos, animais, etc... No texto o minuano – que é um forte vento – é transformado em pessoa que age, pensa, sente como humanos, pragueja, tem vontades, dança, geme e assovia. Sua força é sugerida pela repetição da forma verbal bate, bate e pela capacidade de empurrar as portas.
Há, também, a presença da comparação, figura que estabelece um paralelo entre dois seres, através do nexo de igualdade “como”. Ex: “ praguejando como um doido.”
Logo no início há uma seqüência de metáforas, comparações subentendidas. Ex: “.Janelas brilham no escuro/ cada casa é um estrelinha/ cada estrela é uma família.” A linguagem metafórica é própria de textos literários.
No verso: “ Há mais estrelas na terra/ do que no céu, Deus do céu!” encontramos um pensamento exagerado, esta figura é denominada hipérbole.
Na ultima estrofe aparece uma seqüência de atitudes e ações opostas, chamadas de antítese. “ Geme e dança pela rua/ enquanto assovia - chora / enquanto chora - assovia.”

Todas essas figuras mostram a riqueza da linguagem literária, que entre outros elementos, é caracterizada pelo uso da linguagem figurada.



Por: Lucas Neiva

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