sábado, 21 de novembro de 2009

O Diálogo entre textos: A intertextualidade

"Intertextualidade é o que ocorre toda vez que um texto tem relaçoes claras com outro, ou outros. É, portanto, um diálogo de um texto com outro."


A RAPOSA E AS UVAS

De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do areal do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista. Olhou e viu, além de tudo, à altura de um salto, cachos de uvas maravilhosos, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo o que tinha, não conseguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre dentes, com raiva: “Ah, também, não tem importância. Estão muito verdes.” E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular e havia risco de despencar, esticou a pata e... Conseguiu! Com avidez colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

MORAL: A FRUSTRAÇÃO É UMA FORMA DE JULGAMENTO TÃO BOA COMO QUALQUER OUTRA.
FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas.13.ed.
Rio de Janeiro: Nórdica,1991, p.118.

A fábula de Millôr Fernandes dialoga com outras fábulas do mesmo nome, que apresenta várias versões, desde clássicos gregos, passando por La Fontaine ( francês ) e Monteiro Lobato.
O autor nos prepara para um leitura diferente da do texto original através do título do livro “ Fábulas Fabulosas” que pode sugerir “ excelente” como “ mentirosas”, mais que as outras. Este título é tão irônico quanto a própria fábula mencionada.
A principal diferença entre este texto e o original é a moral da história, que na fábula original é “ quem desdenha quer comprar” e ainda a raposa não consegue alcançar as uvas. Já no texto de Millôr, a raposa se esforça e até consegue pegar as uvas. Daí vem a frustração, sentimento que não aparece na primeira história.
Millôr destaca de forma interessante a fome ( necessidade natural) do animal e o defeito, a gula, um dos sete pecados capitais. Ex: A fome tem quatro dias, e a gula de todos os tempos.

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